OS SERES HUMANOS SEPARADOS OU DIVIDIDOS POR CERCAS E MUROS

Publicado em 11/01/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

OS SERES HUMANOS SEPARADOS OU DIVIDIDOS POR CERCAS E MUROS

É insistente mas não é nova a ideia do presidente norte-americano, Donald Trump, da construção de um muro que separe seu país dos vizinhos mexicanos. Concepção semelhante no princípio deste novo milênio partiu de outro republicano, George W. Bush, desagradando seu colega, presidente do México, Vicente Fox. A proposta de então consistia numa barreira de concreto com a extensão de mais de mil quilômetros a fim de barrar a migração ilegal dos terceiro-mundistas para o eldorado americano. A situação tem se agravado com a marcha recente dos centro-americanos de El Salvador, Honduras e Guatemala que adotaram esse movimento coletivo com o intuito de escaparem da miséria e das facções criminosas de seus países, bem como dos massacres de pequenos grupos familiares ou de amigos a que estavam sujeitos em território asteca, sob o implacável domínio do narcotráfico. O impasse dessa construção agora aflora no parlamento dos Estados Unidos em face da oposição dos democratas, que reconquistaram a maioria na Câmara dos Deputados, nas eleições do ano passado, recusando-se a aprovar recursos orçamentários com essa destinação. Também não é nova a paralisia do governo norte-americano decorrente desse embaraço orçamentário. Em situação inversa e por outras razões, os governos democratas de Jimmy Carter e de Bill Clinton sofreram oposição semelhante, ficando paralisados por 17 e 19 dias, respectivamente, enquanto vários setores da sociedade sofriam as consequências dos embates, como a falta de pagamento de salários e o fechamento de parques, museus e outros órgãos governamentais.

                 Se não é nova a sugestão de um muro divisório entre os Estados Unidos e o México, muito menos isto é uma nova prática da humanidade. Capítulos históricos de livros, jornais ou revistas datam de uns 200 anos antes de Cristo o início do erguimento da Grande Muralha da China. Essas mesmas fontes acrescentam que “O Grande Caminho”, segundo os chineses, foi sendo acrescido de tempos em tempos, principalmente na Dinastia Ming, que reinou entre os séculos XIV e XV. Sua extensão está confirmada em pouco mais de 21 Km. Coube ao primeiro astronauta chinês, Yang Liwei, em 2003, desfazer a crença disseminada pelo mundo – e para a decepção dos seus compatriotas – de que a Grande Muralha era a única construção humana visível no espaço sideral. Sabe-se hoje que não somente ela, mas, as pirâmides egípcias, grandes hidrelétricas – como Itaipu – e outros feitos podem ser vistos em altitudes inferiores a 300 Km, nunca acima disso, muito menos da Lua, de onde se veem apenas os contornos dos continentes terrestres. A função de defesa contra invasores bárbaros é uma das possibilidades dessa muralha, porém, ao longo do tempo, pode ter servido aos instintos megalomaníacos de alguns imperadores, bem como de oferta de trabalho para a população, incluindo soldados, inclusive a possibilidade de manutenção de um grande exército que não estivesse concentrado ao redor de algumas cidades.

                     No entanto, os muros da atualidade são verdadeiras barreiras de segregação dos seres humanos, “apartheids” sociais, destinados a impedir que a nossa espécie tenha livre circulação pelo planeta. Ironicamente, uma verdadeira frenagem migratória, inversa ao espalhamento e a evolução do homem primitivo por todos os cantos da Terra.

                      Ao fim da II Guerra Mundial, os vencedores fizeram uma partilha de áreas conflagradas, sendo uma delas Berlim, dividida em quatro regiões administrativas sob a subordinação de ingleses, franceses, americanos e soviéticos. Pois bem, estes últimos ali construíram, em 1961, a mais famosa das barreiras – o Muro de Berlim. Claro que o objetivo dele era o de evitar deserções de perseguidos políticos ou de pessoas deslumbradas e atraídas pelo conforto e a sedução do capitalismo, em contraposição à disciplina soviética e ao trabalho árduo e menos remunerado da Alemanha do lado de lá. Implodida a União Soviética na Era Gorbatchev, ruiu o Muro de Berlim, em novembro de 1989. Trinta anos depois desse fim, percebemos e analisamos como exageradas as críticas diárias e massacrantes contra aquilo que foi símbolo do comunismo na Rússia e suas repúblicas federadas.

                      Então vejamos: existe hoje uma divisória tão perversa e cruel tal qual a berlinense – o Muro da Cisjordânia – para o qual há defensores tão convictos e fanatizados como os que defendiam o Muro de Berlim. Entretanto, certos governos e corporações não destilam contra ele os mesmos venenos de outrora. Se Berlim foi um esquartejamento legalizado pelos quatro grandes aliados vencedores, os territórios da Cisjordânia foram uma ocupação belicosa desproporcional por parte de Israel na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967. Tão desigual, tão desproporcional, que palestinos, Egito e outros árabes não resistiram ao menos uma semana, embora os egípcios viessem atiçando os israelenses desde o bloqueio do Canal de Suez, em 1956. Resoluções da Organização das Nações Unidas – ONU – pedem em vão a devolução dos territórios ocupados, muito embora o próprio Egito tenha firmado um acordo particular de paz com Israel, em 1978 – Camp David – recobrando parte das suas terras. Se o Estado judaico foi criado no pós-guerra – e com a imprescindível intervenção do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha – com o sacrifício dos palestinos, hoje essa mesma nação exorbita da sua força e da sua condição de potência militar e nuclear, impondo seu funesto muro sob o pretexto defensivo, mas incentivando seus colonos a construírem na Cisjordânia.

                        Não bastasse a degradação planetária para fazer face ao desmedido e incontido crescimento demográfico, essa espoliação dos recursos naturais se amplia e se agiganta em medidas de contenção e repressão às hordas famintas e sem destino. Assim agiu o xenófobo Viktor Orbán, Primeiro-Ministro da Hungria, que ergueu os muros fronteiriços com a Sérvia e a Croácia.  França e Reino Unido produziram o Muro de Calais, junto ao Eurotúnel. Até aqui no Brasil, existe o Muro de Cubatão, com mais de 1 Km para segregar os favelados da Vila Esperança e a Rodovia dos Imigrantes, pela qual descem os paulistanos para curtirem as praias do litoral da Baixada Santista.

                         A volúpia humana vai além, pois extrapola limites militares como a OTAN e o extinto Pacto de Varsóvia. O presidente Ronald Reagan sonhou com o controle espacial, que chamou de Guerra nas Estrelas; atualmente Trump defende a militarização do espaço sideral, esquecendo-se de que Rússia e China também têm domínio da tecnologia e da astronáutica.

                        As muralhas significaram tanto a defesa como o poder dos senhores feudais em épocas medievais, defendendo seus castelos. Hoje elas se transformam em obstáculos para migrantes e refugiados – os que buscam melhoria de vida ou fogem de guerras ou perseguições políticas. No plano interno de países como o Brasil, já não bastam cercas-vivas e simples muros de alvenaria para a proteção das residências e das propriedades, pois, agora, são muros altos, cacos de vidro, cercas eletrificadas, câmeras, polícia comunitária e novos equipamentos tecnológicos, tudo isso ainda ineficiente no combate à marginalidade e ao banditismo. O real combate, a eficiência nessa luta está ao alcance das lideranças políticas, empresariais e militares, que teimam em ignorar esse fosso provocado pela desigualdade social. Até Lula, o paladino dos pobres, aqui protegeu e se promiscuiu com banqueiros e o grande empresariado.

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]