Como intransigentes defensores do ensino público não queremos ser vistos como inimigos do ensino particular. No passado e no presente não podemos ignorar a importância dos colégios e universidades particulares, sobretudo aqueles fundados e administrados por instituições religiosas.Sempre houve profundo reconhecimento da sociedade pela finesse e alto nível de sabedoria pelos alunos de um educandário Marista, de um “Sacré Coeur”, de um Logosófico, de um Mackenzie, de um Izabella Hendrix, de um Gammon e outros. As Pontifícias Universidades Católicas (PUCs), a Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) e a Universidade Mackenzie são hoje excelentes centros de graduação e pós-graduação. No entanto, todos custam uma boa grana. Nem todo mundo tem sobras de dinheiro para investir no estudo pago dos filhos. Por isso, defendemos a escola pública, ou seja, aquela que possa oferecer oportunidades para pobres e remediados subirem socialmente, através dos estudos e do conhecimento. Mais do que isso, para que talentos potenciais possam passar pela metamorfose do saber. Não sabemos se através de cotas para negros, para portadores de deficiência ou para pobres, mas, nos dias de hoje, essas chances vão se materializando cada vez mais, tendo como passaporte o ENEM - exame de avaliação do ensino médio -, uma nova forma de acesso aos cursos técnicos, tecnológicos e superiores, que muda a lógica injusta dos tradicionais vestibulares.
Nos artigos anteriores, exaltamos o governo Lula pela dinamização e consolidação do ensino público no tocante a esses cursos. Havia 50 anos que estes não se expandiam como neste governo. Muzambinho, um município pertencente a uma região conservadora, deveria regozijar-se e curvar-se à política de orientação trabalhista e progressista, pois é daqueles dentre milhares beneficiados no seu desenvolvimento socioeconômico por esses governos. Primeiramente, pelo presidente Dutra, que veio após a Ditadura Vargas, uma espécie de continuidade democrática da mesma, na qual foram plantadas as sementes das futuras escolas agro técnicas, uma delas instalada em nossa cidade no período presidencial subseqüente e democrático de Vargas. Agora, Lula cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETs), vindo a Escola Agrotécnica a ser transformada em ‘campus’ do IFET Sul de Minas Gerais, juntamente com os de Machado e Inconfidentes. Com isso, abre-se um leque de novos cursos presenciais e à distância - técnicos, tecnológicos e superiores. Os alunos vem aumentando às centenas e novos professores e funcionários chegam para dar suporte a eles. Dá-se um crescimento sustentado ao nosso Município, ao contrário de muitos que incham populacionalmente e geram sérios transtornos sociais.
Se nos primórdios da Escola Agrotécnica ela representou um avanço educacional para o nosso município e toda uma região, hoje, com o IFET, representa orgulho redobrado e a certeza de novo avanço, do efetivo crescimento da Instituição dentro de modernos padrões educacionais. Neste momento, há um auspicioso alinhamento de idéias entre o governo central, através do Ministério da Educação e sua Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica, com a Reitoria do IFET Sul de Minas Gerais e com a Diretoria-Geral do ‘campus’ de Muzambinho. A escola foi valorizada com a condução do antigo diretor, Prof. Rômulo Eduardo Bernardes da Silva, para o honroso cargo de Reitor deste IFET, cuja reitoria está instalada em Pouso Alegre. Para a direção-geral do nosso ‘campus’ foi nomeado outro dirigente que antes já desenvolvia importante atuação diretiva na Escola: o Prof. Luiz Carlos Machado Rodrigues, natural da Zona da Mata mineira, de Capela Nova, técnico agrícola pela antiga Escola Agrotécnica Federal de Barbacena, com bacharelado e licenciatura em Agronomia pela ESAL - Escola Superior de Agricultura de Lavras - onde veio a exercer o cargo de Consultor de Ensino Agrícola de 5ª a 8ª séries, antes de transferir-se para Muzambinho, cidade que já lhe concedeu o título de Cidadão Honorário, através da Câmara Municipal, pelos relevantes serviços aqui prestados.
Nesta abordagem a respeito da Escola Agrotécnica Federal, obrigatoriamente temos que nos referir ao muzambinhense Dr.Lycurgo Leite Filho, deputado federal na época da criação e instalação da mesma. Muitos indagarão como ele conseguiu canalizar este benefício para a sua terra, sendo da UDN - União Democrática Nacional -, partido de oposição a Dutra e a Getúlio Vargas. Em nossas pesquisas documentais e entrevistas com pessoas daquela época, constatamos a amizade pessoal do deputado com seu colega de Câmara, o pernambucano João Cleofas (citado nas duas partes iniciais desta série), que foi um dos fundadores da UDN, em l946. Este, viria a ser Ministro da Agricultura do governo democrático de Vargas, a cujo ministério as agrotécnicas por muitos anos estiveram subordinadas, sendo esta a razão da presença dele na inauguração da Escola, em 1953.
Outra figura lendária, a ser eternamente lembrada nessa história, é a do prefeito da época da criação da Escola, ainda no governo Dutra,Messias Gomes de Mello, que fez um esforço descomunal para a compra do vasto terreno para a instalação da mesma, condição indispensável para isso. Sabemos que ele se responsabilizou pessoalmente no empréstimo para a compra, sem o que o município não teria trazido esta Instituição para cá.
Omissões imperdoáveis também houve. Também sendo o Poder Local da UDN, nunca se homenageou Getúlio, do PTB, nem Dutra, do PSD. Somente em l992, quando da idealização da Vila Socialista, nós, como prefeito, demos o nome dele a uma das ruas desse pujante bairro, que hoje tem cerca de 400 casas. Curiosa deve ser a observação, que ouvimos, de que a rua Capitão Heliodoro Mariano chamava-se 29 de Outubro, em comemoração à data da derrubada da Ditadura Vargas, sendo um Deus nos acuda para evitar que o presidente então eleito pelo povo. que aqui viera para a inauguração, percebesse a ojeriza a sua pessoa, na terra em que ele instalava tão grandiosa unidade federal.Coisas da política, que somente a passagem dos anos desvenda.
* Marco Regis de Almeida Lima é médico e exerceu os cargos de prefeito de Muzambinho (1989/92 e 2005/08) e deputado estadual – MG (1995/98 e 1999/2002)
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