Há um pequenino mas cintilante ponto que se revela na constelação escolar do Brasil, nessa trajetória de duzentos anos. Dele emana um surpreendente fulgor, que pode ser observado com detalhes em um processo de focalização. É só uma questão de “zoom” para visualizar a notável e intelectual Muzambinho.
Em artigos anteriores desta série, pudemos constatar o florescimento de um de seus educandários mais badalados e difundidos em razão da numerosa diversidade de docentes e discentes que por ele passaram ao longo de 56 anos. O foco mais utilizado, até o presente texto, foi a antiga Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho, hoje ‘campus’ Muzambinho do Instituto Federal Sul de Minas Gerais (IFET), onde foram formadas inúmeras gerações de técnicos agrícolas; depois os técnicos em agroindústria, em agropecuária, em informática, em enfermagem tradicional e do trabalho, até cuidadores de idosos. Recentemente, os tecnólogos em cafeicultura; e, em breve, especialistas em cafeicultura sustentável. Neste semestre, o IFET começou as primeiras turmas de cursos superiores em Ciências Biológicas e Ciência da Computação; no ano que vem, iniciará a Engenharia Agronômica, um curso diferenciado pela prática no campo. É no relevo do Morro Preto, onde se encontra a pujança do nosso Instituto Federal, que sopram os ventos fortes do progresso em nosso município.
Hoje, o centro da nossa atenção vai estar em outra instituição de ensino muzambinhense que se notabilizou em nossa região, oferecendo educação profissional gratuita – a Escola Municipal “Dr. José Januario de Magalhães”, carinhosamente conhecida por Escola de Comercio ou Colégio Comercial.
Na saga desta escola desponta o nome do seu idealizador e um dos co-fundadores, o Prof. Claudio Roberto Villas Boas. Os outros foram os também professores: Antonio Carlos Abdalla, Claudete Helena Carli, João Marques de Vasconcelos, José Maria Pereira Junior, José Mariano Franco de Carvalho, José Sales de Magalhães Filho, Paulo Villena da Silva, Romildo Laureano Gonçalves Araujo e Wellington de Oliveira. Romildo, na verdade, residia em outra cidade da região e viria a ocupar um cargo de bancário na agencia em Muzambinho do Banco de Crédito Real do Estado de Minas Gerais, sendo que iniciara curso de contabilidade na referida cidade e idealizava concluí-lo em Muzambinho. Todos eles sonhadores com o prestígio educacional de nossa cidade e com o seu desenvolvimento econômico e social. Desta plêiade, é falecido o lendário Prof. José Mariano, oriundo de Alfenas e que lecionava Matemática e Física na Escola Salatiel de Almeida; o Prof. Claudio Villas Boas transferiu-se para Brasília aqui deixando familiares; a Profa. Claudete, filha de um dos proprietários do imóvel do “Bar Avenida”, mudou-se para o estado de São Paulo; o Prof. João Marques galgou os cargos de Deputado Estadual e vice-governador de Minas Gerais e reside em nossa capital, mas é o sócio majoritário da Sociedade Radio Rural de Muzambinho; os demais continuam a viver em Muzambinho.
O Colégio Comercial foi criado em 20 de abril de 1964, obtendo autorização para funcionamento em 25 de fevereiro de 1965, através da Portaria nº 133, da Diretoria de Ensino Comercial do Ministério da Educação e Cultura. Seu reconhecimento legal deu-se pela Resolução nº 632, de 12.04.1974. Em depoimento prestado pelo eminente muzambinhense e um dos fundadores do estabelecimento, Prof. Antonio Carlos Abdala, esta foi a primeira escola noturna da cidade, vindo a funcionar nas dependências do “Salatiel de Almeida” que, na época somente tinha cursos diurnos, por cessão feita pelo então diretor do mesmo, Prof. Walter Cipriani. Depois, funcionou na parte superior de onde hoje se localizam os bancos Itaú e Bradesco. Mais tarde funcionaria na Escola Estadual “Frei Florentino” até que a municipalidade o localizasse no portentoso prédio da rua Salatiel de Almeida, a do Banco do Brasil. Aliás, tal prédio pertence a uma congregação religiosa de freiras católicas, onde essa Ordem possuía um pensionato para moças estudantes até a década de l960. Abdala, que foi diretor da escola de 1969 a 1976, sucedendo a Villas Boas (1964/1969), afirma que conheceu e foi aluno de música de uma das freiras, Irmã Maria Auxiliadora, uma espanhola que recebera vultosa herança na Espanha e aplicou parte dela em doação à Ordem, que construiu tal prédio em substituição ao antigo pensionato. Como prefeito que fui, por duas gestões distantes uma da outra, posso atestar a presença de freiras de São Paulo nos momentos de renovação dos contratos de aluguel com a Prefeitura. Antonio Carlos Abdala, também fala d o seu período de diretor, que foi conturbado, com ameaças de fechamento do educandário por parte da Previdência Social, em face às dividas acumuladas, pois, apesar de particular nunca cobrou mensalidades e os professores lecionavam gratuitamente, até a estatização, a partir de quando viriam a receber um salário simbólico, mais pelo prazer e pelo ‘status’ do cargo, Na sua época não eram feitos os devidos registros e recolhimentos legais pertinentes aos funcionários, gerando tais dívidas com o Governo Federal, sempre voraz na sua fome por recursos. Na ocasião, ele fazia o Curso de Letras em Guaxupé e um de seus professores, que era de Monte Santo de Minas, Prof. Brasiliano Santana, sugeriu que o grupo fundador trabalhasse pela municipalização da escola e, assim, poderia o Município ser beneficiado por lei federal de parcelamento dessa divida. Foi assim que, num trabalho desenvolvido pelo Vereador José Salomão, o prefeito Orivaldo Gabriel Pereira compartilhou da idéia, vindo a sancionar uma Lei Municipal neste sentido, em fevereiro de 1972, passando a Prefeitura Municipal a ser a sua entidade mantenedora. Até 1975, havia o curso básico ou ginasial (de 1ª a 4ª series); e o colegial comercial (nível médio de 1ª a 3ª), quando o básico comercial foi extinto. Com o advento da Lei Federal nº 9394/96, a LDB, o colegial perdeu a condição de Curso Médio, passando a ser Curso Técnico pós-médio por imposição da mesma.
A denominação Escola Municipal “Dr. José Januario de Magalhães” foi dada, através de lei municipal, em 26.08.1976, em homenagem ao médico e ex-prefeito, que deixou como legado a Praça D. Pedro II, Chapéu de Sol e o Cruzeiro de Pedra, este último inaugurado em l937.
Na nossa primeira gestão como prefeito de Muzambinho, demos carta-branca para que o nosso Vice e Secretario da Educação, um dos co-fundadores da escola comercial, Prof. José Sales de Magalhães Filho, ao lado de assessoras como as professoras Helena Lucia Riboli e Marta Santiago, incorporassem um novo curso técnico ao lado do contábil já existente, que foi o Curso Técnico em Administração. Este foi autorizado a funcionar a partir de 12.04.1991, pela Portaria nº 357/90, da Secretaria de Estado da Educação, e pelo Parecer nº 284, de 26.03.1991, do Conselho Estadual de Educação.
A grande característica de Muzambinho sempre foi a elevada qualidade do seu ensino. Isto desde a fundação do decantado Lyceu de Muzambinho – hoje Escola Estadual “Prof. Salatiel de Almeida”, em 1901, que foi estadualizado em 1926. Com isso, a cidade sempre atraiu alunos da região e de todo o País, havendo aqui estudado pessoas de outras cidades, que viriam a se tornar proeminentes nos mais diversos setores da atividade humana, no Brasil e no mundo, como muitos de seus próprios filhos. Foi o que aconteceu com a Escola Normal, com o Lyceu, com o Colégio Estadual, e que continua acontecendo com o IFET, com a Escola Superior de Educação Física, com a Escola Técnica de Contabilidade e Administração e até com o novo Lyceu Anglo de Muzambinho, pertencente à Fundação Educacional Muzambinho (nome em homenagem ao antigo Lyceu).
Na opinião do entusiasta educador e empresário muzambinhense, Célio Sales Sobrinho, o diretor que mais tempo permaneceu a frente do Colégio Comercial (1987-2000), “ 90% dos serviços contábeis e de administração no nosso município são executados por profissionais forjados nesta Escola e deve ser alto o percentual nos municípios vizinhos”.
Atualmente, todas as noites a escola recebe alunos provenientes de oito municípios da região, a saber: Alpinópolis, Areado, Bom Jesus da Penha, Cabo Verde, Carmo do Rio Claro, Conceição Aparecida, Monte Belo e Nova Resende, alem de Muzambinho.
Temos visto, ao longo dos artigos desta serie, que o prestigio educacional obtido por Muzambinho não caiu do céu como o maná de Êxodo, mas foi fruto do ideal, do trabalho e da perseverança dos seus filhos, muitos deles adotivos e rotulados por gente mesquinha como forasteiros – como eu.








