“Acordei de um sonho estranho:
um gosto de vidro e corte,
com sabor de vida e morte!”
(San Vicente, de Milton Nascimento e Fernando Brant).
Acaba de ser inaugurado, em New York, o Memorial do 11 de Setembro. Ele é formado por duas cascatas de 4 mil metros quadrados e quedas de água de 9 metros, dispostas exatamente no ponto onde cada uma das torres gêmeas se erguia. As cascatas são rodeadas por um parque de 65 mil metros quadrados que deve abrigar 400 árvores até ser concluído. Tem lá uma pereira que sobreviveu aos ataques de 2001 e passou os últimos 10 anos se recuperando num viveiro. Ao redor das cascatas, parapeitos de bronze apresentam os nomes das 3.000 vítimas. Os nomes não seguem uma ordem alfabética comum. Eles foram agrupados num jogo complexo de algoritmos por relacionamento: pessoas que trabalhavam juntas, amigos, familiares e até pessoas com histórias de vidas semelhantes. O arquiteto Michael Arad, construtor do Memorial, diz: “Tratei de construir o equivalente a um momento de silêncio. É o visitante que decide o que fazer com esse momento que proporciona descanso e reflexão”.
Acho que cada um de nós, em suas devidas proporções, tem lá as suas torres atacadas no decorrer da vida e seus percalços. Eu mesmo, em maio último, tive minhas torrinhas atacadas com arquitetada ferocidade, não obstante serem bem construídas. Foi numa descontraída reunião de almoço familiar. Como um travestido Osama Bin Laden, um contraparente, analfabeto funcional, farsante, mas hábil em armar circo, produz uma ridícula cena para tentar desarmar as minhas torrinhas. Não respondi ao ataque em consideração a uma pessoa adoentada, presente naquele almoço. A resposta virá com o tempo, pois a verdade é filha dele; do tempo. – Enquanto fico no momento de silêncio do meu memorial.
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