O DECLÍNIO DA DEMOCRACIA E DO CAPITALISMO NO BRASIL

Publicado em 20/04/2017 - Marco Regis - Da Redação

O DECLÍNIO DA DEMOCRACIA E DO CAPITALISMO NO BRASIL

Eu poderia parafrasear o falecido cantor Cazuza e escrever: ‘nossa democracia fede; nosso capitalismo fede’. Mas poderia incorrer nas mesmas contradições dele quando cantou que “a burguesia fede”, porque não soubesse, talvez, o verdadeiro significado da palavra burguesia. O blog de Adolfo Sachsida, de 6 de outubro de 2009, e os comentários que lhe sucedem, levantam controvérsias sobre essa música a começar pela condição burguesa do próprio Cazuza, pois “burgueses são pessoas bem sucedidas, que desfrutam de maior grau social e maior conforto devido à sua habilidade e esforços próprios, mesmo não tendo nascido na aristocracia”. Esta, segundo o meu dicionário Koogan/Houaiss, “é o governo da classe dos nobres” (ou dos privilegiados ou das elites). Portanto, burgueses seriam os profissionais liberais, os empresários e os trabalhadores do setor privado, cujo fruto da sua riqueza é o trabalho – exceto quando corrompidos.
Mas, fedorento mesmo é o noticiário dos nossos telejornais há uns dez dias, antes da Semana Santa. Eles só falam em delatores, propinas e corrupção de deputados, senadores, governadores, ministros e presidentes. Essa gente roubou tanto, e com tanta facilidade, que assaltos com explosões de caixas eletrônicos passaram a ser vistos com a realidade de uma atividade de risco. Então, fico confuso se devo enquadrar certa classe empresarial e política, bem como os assaltantes de banco no rol da burguesia.
Muitos podem ter me julgado conivente com essa situação por haver defendido ardentemente as regras do jogo democrático. Na verdade, lutei contra o último golpe, o chamado golpismo constitucional brasileiro, porém tive a oportunidade de demonstrar discernimento. Em 25/9 e 27/11, ambos de 2015, meus artigos para este jornal aplaudiram e trataram de posições como a do Supremo Tribunal Federal, que decidiu pelo fim do financiamento empresarial das campanhas políticas, bem como da Justiça da Lava Jato que determinou prisões de milionários e políticos corruptos.
Não somente escrevi contra o financiamento privado das campanhas políticas e a conseqüente corrupção como efeito. Pratiquei a lisura nas minhas campanhas políticas. Discordando do descarado ex-presidente da empresa Odebrecht, Marcelo, de mesmo sobrenome, que foi enfático em um dos seus depoimentos à Justiça ao dizer que “impossível neste País alguém ter sido eleito sem caixa-2”, eu posso me orgulhar de haver sido eleito prefeito por dois mandatos e, também por dois, como deputado estadual mineiro muito mais que sem caixa-2, nem com caixa-1, não contando ajuda de ninguém, pois fui eleito com os meus parcos recursos e pelo bem que pude praticar na minha vida pessoal e profissional. A ajuda que não posso deixar de relatar foi a Divina. Não estou somente agora escrevendo sobre isso, pois, bradei isso inúmeras vezes da tribuna da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ocasiões em que percebia a maioria dos meus pares murcharem suas orelhas, sendo nocauteados nas suas almas.
O quadro político, econômico, social e policial do Brasil é preocupante. O historiador, pensador, escritor e professor, Leandro Karnal disse pela TV, dias atrás, que se rouba na Brasil desde 1.500 e nada foi feito em contrário, sendo, por esta razão, que as águas da faxina que ora se faz apresentam-se tão sujas. Emílio Odebrecht, outro ex-dono da empreiteira que leva o seu nome afirmou, categoricamente, em Juízo, que lida com o assunto ‘propina’ há trinta anos. Eu acrescento que na época das privatizações, do governo de Fernando Henrique Cardoso, as denúncias de roubalheira foram tamanhas como a Petrobrás de hoje. Mas, a imprensa que pode mover a opinião pública se calou porque ansiava a desmonte do Estado brasileiro, certamente na perspectiva de maiores patrocinadores dali em diante. Os políticos se silenciaram por conivência. As autoridades policiais e do judiciário de então não se moveram. Então chegamos à nojeira dos dias atuais. Nunca deixei de ter a convicção de que a corrupção era sistêmica, algo semelhante ao que chamamos de septicemia em medicina. Provavelmente, ninguém desbancará a empreiteira Odebrecht no organizacional dessa corrupção, inclusive com um departamento de propinas para cuidar de cifras vultosas. Mas outras estão envolvidas na própria Lava Jato. E se fosse permitida uma devassa nos governos estaduais e prefeituras de todo o Brasil, veríamos que a corrupção está entranhada nessas esferas de poder, mormente na área de obras públicas ou de compras. Leis de licitações e de responsabilidade fiscal são impeditivas para governantes honestos e favoráveis aos corruptos.
O povo que veio a se revelar tão crítico e intransigente nas redes sociais precisa mais de noções sobre política e ética para conquistar a Nação que almeja. Saber votar é saber esquadrinhar a vida das pessoas para então votar. Parece que as pessoas têm atração pelos poderosos sem se importarem de onde veio esse poder. Pobres, então, mais são atraídos pelos ricaços melosos como que querendo tirar algum proveito deles. Por outro lado, generosidade nem sempre é uma virtude pura, pois sabemos que altos traficantes são generosos nos seus territórios. Quanto à ética, ela deve ser demonstrada nos pequenos detalhes e não subornando funcionários públicos, nem retirando uma multa que foi bem aplicada ou cumprindo a lei somente porque está sendo vigiado. Pense bem no quanto evitaríamos mortandade e mutilações nas rodovias se obedecêssemos às leis de trânsito. A ética é muito vasta. A política é mais complexa do que imaginam os eleitores aproveitadores. O capitalismo sem ética é corrupto, como já abordaram os últimos papas – Francisco, Bento XVI e João Paulo II, através de encíclicas. Nisso estão as razões da falência do capitalismo e da democracia no Brasil.

[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).