O que o político não pode dizer, mas que o eleitor pode pensar e falar

Publicado em 11/08/2017 - Ivan Pereira - Da Redação

O que o político não pode dizer, mas que o eleitor pode pensar e falar

Há certas coisas que o político não pode dizer, embora o eleitor possa pensar e falar nelas sem qualquer problema. São as famosas frases e declarações infelizes.

Paulo Maluf é o maior exemplo na política brasileira neste aspecto. Ele vem sendo perseguido ha várias eleições pela declaração “estupra mas não mata” que, como ele mesmo já explicou, foi feita num momento em que se encontrava extremamente cansado e sem a intenção que seus adversários lhe imputam, quando usam a frase contra ele.
Maluf já foi levado mesmo a gastar programas para se explicar e tentar espantar esta frase da sua carreira, sem sucesso. Nada funcionou. O problema está no fato de que as explicações produzem menos impacto no eleitor do que a frase pronunciada, e as vezes até reacendem a questão com mais força.
Só o fato de ter que se explicar já é ruim, ter que se explicar em matérias desta natureza é muito pior, ainda mais quando a explicação é feita num período eleitoral, em que o eleitor sempre fica desconfiado se a explicação é autêntica ou apenas motivada pelo interesse eleitoral.
Agora, com a proximidade das novas eleições majoritárias, muitos eleitores vão começar a buscar na memória, e com o novo advento das redes sociais, desta vez mesmo que a memória falhe será possível “relembrar”, muitas promessas de AÇÕES e CONDUTAS, que foram instantaneamente deixadas de lado assim que o mandato começou. Muitas coisas serão lembradas, e muitos serão ferozmente criticados, especialmente se ressurgirem com a mesma conversa da última campanha.
Que fazer nessas circunstâncias? Não há muito o que fazer além de explicar pela enésima vez o que quis dizer e foi mal entendido, ou porque teve de mudar a conduta tão intensamente prometida. Vai funcionar? Dificilmente. O ideal é estar precavido para nunca cair neste erro, mas uma vez que o fato já é histórico (já ocorreu), é importante estar atento e preparado para conter as críticas no seu início, para perceber o direcionamento do contexto, que pode estar caminhando para lembrarmos por que tal coisa não foi feita, e conseguir sair da situação o mais brevemente possível. Muitas vezes a ausência em eventos ou reuniões onde se sabe ser uma armadilha (criada pelos adversários ou por si próprio) é a melhor alternativa.
O candidato deve adotar como regra evitar fazer este tipo de declaração sempre que estiver naquelas condições acima enumeradas: cansado, de mau humor, excessivamente eufórico ou qualquer outra condição psicologicamente desfavorável.
Nestas situações – com as emoções à flor da pele - é preferível não falar, ou não falar naquele momento ou conversar com sua assessoria o que está pensando falar para evitar o tropeço.
Também deve adotar a cautela no uso de frases de efeito. É sempre preferível testá-las com seus assessores antes de usá-las, sobretudo aquelas mais “atraentes” de dizer, pelo seu conteúdo espirituoso e pela sua originalidade.
Não há dúvida de que se forem desta natureza serão citadas na mídia com destaque. Mas uma vez aparecendo na mídia, por suas próprias características, serão difundidas no eleitorado com uma velocidade incrível.
Cria-se desta forma uma frase que poderá ser sua “companheira” pelo resto de sua carreira, com destaque especial para as eleições que concorrer, sobretudo para funções executivas. E, no final das contas, pensando-se bem, elas eram totalmente desnecessárias para os argumentos da candidatura.
Não esqueça nunca que há certas coisas que o político pode dizer, assim como há outras em que cabe ao eleitor, e só a ele, usá-la. Você deve preparar tudo para que a conclusão seja aquela, mas são eles que devem chegar à conclusão e expressá-la.
Um exemplo bem brasileiro da diferença que existe entre uma afirmação que um político não pode nunca fazer e a mesma afirmação feita pelo eleitor e por ele aceita é a famosa frase “rouba mas faz”. Sabemos que, por muitos anos, esta frase foi a justificativa que certos eleitores encontraram para votar em candidatos acusados de corrupção.
A diferença está em que, se o político usar a frase como um argumento para votar nele, apesar de sua má fama, ele estará sendo um cínico debochando do eleitor e buscando a sua cumplicidade e prévia absolvição para seus atos ilegais. Por outro lado, é perfeitamente possível que o eleitor, varrendo com sua observação os candidatos que lhe são oferecidos, conclua que prefere votar em quem “rouba mas faz”.