PRESIDENTE BOLSONARO PÕE BRASIL DE JOELHOS DIANTE DE DONALD TRUMP

Publicado em 22/03/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

PRESIDENTE BOLSONARO PÕE BRASIL DE JOELHOS DIANTE DE DONALD TRUMP

Por mais que um mandatário represente um país mesmo que de 5ª categoria do ponto de vista político, militar, social e econômico, ele deve se comportar com altivez, brio e orgulho diante dos seus pares, aqui valendo os seus reais substantivos sinônimos. Não faz diferença que seja diante de outro governante poderoso. Não foi isso que vimos no decorrer desta semana em transmissão ao vivo pela televisão. O agravante é que o visitante não representava um país qualquer frente ao outro mais forte. Era o presidente de uma nação mundialmente reconhecida como, pelo menos, potência emergente, a 9ª economia mundial na classificação do Fundo Monetário Internacional, e o 30º mais poderoso, de acordo com gastos militares, em publicação da Consultoria Y & R / BAV Group e Universidade da Pensilvânia-USA. Neste caso, o outro é catalogado como o mais poderoso e a maior economia - embora esteja em 12º lugar no “ranking” dos mais ricos, no qual o 1º é o Qatar. Mas, foi esse o posicionamento tíbio e submisso do  presidente da República Federativa do Brasil, Capitão Jair Messias Bolsonaro, no encontro com o presidente dos Estados Unidos da América (EEUU), Donald Trump. Não somente na nossa instantânea interpretação. Em encaminhamento de votação na 3ª feira desta semana, na Câmara dos Deputados, o veterano parlamentar do PSOL-SP, Ivan Valente, a isso se referiu com um termo de tom mais pejorativo: sabujo e seu derivado sabujice.

Nada demais demonstrar respeito e admiração pela grande potência ocidental. Mas, que nos lembremos, desde o estadista Juscelino Kubitscheck de Oliveira, nem ele e nenhum dos demais desceu ao reles degrau da bajulação. Pelo contrário, até o pouco escolarizado Lula foi respeitado por Barack Obama, que o afagou com a expressão de que ele era “o cara”. Pois, Bolsonaro deslumbrou-se com a acolhida de Trump, a ele e ao seu país transbordou frases de admiração,  não somente ao poderio econômico dos EEUU, mas, ao “poderio bélico”, deixando clara, e desnecessariamente, a inferioridade das nossas forças armadas. Aliás, ficamos em dúvida, se o Presidente confundiu o termo bélico com militar, o que foi bem desconfortável. No seu despreparo verbal ele foi mais além: na questão da Venezuela chamou-a de “nossa Venezuela” como se o nosso vizinho sul-americano fosse propriedade brasileira, além de interferir nos próprios destinos deles, pregando, literalmente, que “aquele povo tem que ser libertado”. Essa postura belicosa não tem sido a mesma dos seus companheiros militares de governo, pois, seu porta-voz, General Rêgo Barros afirmou pela TV que “intervenção militar na Venezuela afronta a nossa Carta Magna”, enquanto o próprio vice-Presidente, General Hamilton Mourão, já declarou anteriormente que o território brasileiro não será usado para uma invasão àquele País.

Não desejamos entrar no mérito dos acordos bilaterais, porquanto, voltamos a repetir o que já manifestamos outras vezes: Jair Bolsonaro venceu as eleições democraticamente e tem o condão de estabelecer rumos para o seu governo, que podem ser apoiados os não pelo Congresso Nacional. Porém, é lamentável, que abra graciosamente as fronteiras do nosso País para norte-americanos, canadenses, japoneses e australianos no afã da atração de turistas, mas, ao menos deveria reivindicar isenção de vistos para alguns brasileiros em situações particulares, tipo os que estejam trabalhando ilegalmente nesses países, pelo menos deveria ter havido alguma negociação, pois, diz o ditado que “quem não chora não mama”, pois nem cabe invocar o princípio da reciprocidade porque a iniciativa foi unilateralmente brasileira. A outra questão é relativa ao Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, não somente um ponto ideal para o lançamento de foguetes espaciais, devido à sua localização nas imediações da linha equatorial, por conseguinte, favorável à maior impulsão e ao menor gasto de combustíveis, mas, sobretudo, uma questão de estratégia e de soberania nacional. Aguardemos o momento oportuno da discussão deste Acordo, que, obrigatoriamente, terá que passar pelas duas câmaras do Poder Legislativo.

É inquestionável que as urnas legitimam as ações de um novo governo. Porém não é menos indubitável que essas ações não estão imunes às críticas daqueles que delas discordam. Assim sendo, a questão dos vistos sem a tradicional reciprocidade diplomática; a cessão a que título seja da Base Espacial de Alcântara; a liberação para que importemos 750 mil toneladas de trigo produzido nos EEUU, com total isenção de taxas numa desconsideração com o nosso terceiro grande parceiro de negócios - a Argentina - que sempre nos forneceu a maior parte desse trigo; a quebra da tradicional postura do Itamaraty de não intervenção nos assuntos internos de outros países, sobretudo considerando-se a Venezuela um vizinho fronteiriço; e o canto da sereia trumpiana para que renunciemos à nossa condição de membro especial da OMC - Organização Mundial de Comércio -, um organismo das Nações Unidas, a fim  de que ingressemos num grupo mais seleto e da preferência norte-americana, a OCDE - Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico -, formada pelos mais ricos e de ideologias afins. Ainda cantou mais agudamente esta sereia, pois criou uma expectativa de que os EEUU farão “lobby” para nos integrar à OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte - ou NATO, na sigla inglesa, um pacto militar ocidental dos tempos da Guerra Fria, que se contrapunha ao Pacto de Varsóvia da antiga União Soviética, hoje composto por antigos inimigos como a própria Polônia e outros países da antiga Cortina de Ferro. Quanto a essa proposta, a imprensa mundial noticiou, conforme pesquisa digital, que causou espanto na sua sede em Bruxelas, sendo rechaçada por França e Alemanha, pois melhor interessa integrantes europeus, sendo hoje seu virtual inimigo a Rússia. A horrenda entrevista de Bolsonaro ainda cometeu sabujice criminosa (para homenagear o Deputado Ivan Valente) de querer escancarar os mistérios da biodiversidade amazônica “ao avançado desenvolvimento cientifico e tecnológico dos EEUU”, conforme o discurso do nosso presidente.

Essa foi uma desastrada viagem diplomática, que contou com sete ministros de estado, mais um “ministro do exterior de fato e sem pasta”, o deputado federal do PSL-SP, e filho do Presidente, Eduardo Bolsonaro, na verdade presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, que goza da amizade de Trump e da direita radical norte-americana. Ele que foi um dos mentores dessa viagem, em uma entrevista à imprensa americana, demonstrou total insensibilidade para com a legião de brasileiros que vivem ilegalmente nos EEUU, classificando-os de “vergonha” por estarem na ilegalidade.

Notem que a comitiva foi visitar até a CIA - Central Inteligence Agency - entidade de espionagem dos EEUU, que durante toda a vida tem feito incursões clandestinas nos mais diversos países, mormente da América Latina, influenciando e trocando governos por meios truculentos. Ainda teve mais o estapafúrdio e inusitado momento da entrevista em que Bolsonaro chega ao clímax, hipotecando apoio e esperança de vitória na reeleição de Donald Trump, no ano que vem, insinuando serem socialistas os membros do Partido Democrata, o que não é verdade em se tratando de EEUU, exceto o ex-candidato à convenção passada dessa agremiação, Bernie Sanders.

O jornalista Kennedy Alencar, consagrado no jornalismo político, fez estampar no seu Blog do Kennedy, do último dia 19/3: “Bolsonaro exibe ‘complexo de vira-latas’ em visita aos EUA - despreparo, deslumbramento e submissão dão o tom”. Num dos trechos escreve ele: “Enfim foi um encontro de almas gêmeas. Trumpismo e Bolsonarismo têm suas diferenças, mas são fenômenos políticos autoritários e atrasados”. Já no Blog de Míriam Leitão, que é reproduzido no jornal, rádio e TV da Globo, existe a matéria do jornalista Álvaro Gabriel com a seguinte manchete: “Brasil trocará o certo na OMC pelo duvidoso na OCDE”.

A prestigiosa imprensa alemã, o DW - Deutsche Welle = Onda Alemã - deste 20/3 noticia que “Os presidentes do Senado e da Câmara Federal do Chile, Jaime Quintana e Ivan Flores, bem como vários outros líderes chilenos, não participarão do almoço que será oferecido pelo governo andino ao presidente Jair Bolsonaro, que fará uma visita oficial ao país neste sábado, 23 de março”. As razões seriam a divergência com o ultra-conservadorismo de Bolsonaro.

Finalmente, devemos reproduzir trechos do comunicado do chanceler venezuelano, Jorge Areaza, contido no “site Operamundi”: “O governo da República Bolivariana da Venezuela expressa seu contundente rechaço às perigosas declarações dos presidentes dos EEUU, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro, no dia de hoje (19/3/2019). Resulta grotesco ver dois Chefes de Estado, com grandes responsabilidades internacionais, fazerem apologia da guerra sem qualquer cerimônia, em flagrante violação à Carta das Nações Unidas. Preocupa sobremaneira a influência bélica estadunidense sobre o Brasil e as teses supremacistas de Donald Trump sobre Jair Bolsonaro. Sem dúvida, ambos os presidentes refletem ideias retrógradas para os povos da região, assim como para a paz e a segurança mundial”.

A pesquisa IBOPE sobre o governo Bolsonaro, hoje divulgada, 20/3,  merece a atenção do leitor, que verá a descrédito que já o atinge. O Brasil passará por dolorosas tribulações nos próximos anos. Por pior que queiram refutar os 12 anos de governos petistas, eles foram de paz e prosperidade, sendo destruídos pelos golpistas conservadores.


 *Marco Regis de Almeida Lima é médico, 

foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) 

e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2203)