ÓDIO QUE MATA

Publicado em 15/03/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

ÓDIO QUE MATA

Semana passada aqui escrevemos o texto “A Oculta e Diabólica Índole de Brasileiros”. Esperamos que essa colocação não tenha provocado dúvidas nem ira, pois o vernáculo foi claro e limitador - “de brasileiros” e não “dos brasileiros”. Justamente porque uma parcela minoritária e ativista da nossa população tem semeado discórdia entre a gente, agredindo e discriminando aqueles que deles divergem nas ideias. O pensamento único não é compatível com a democracia. A pluralidade ideológica, o respeito à diversidade e a tolerância são pressupostos de consolidadas democracias. Exemplifiquemos o caso daqueles que condenam a “ditadura venezuelana”. Parcela dessas pessoas se utiliza de palavreado agressivo e caolho contra os “vermelhos”, através de chavões decadentes que já foram poderosas armas contra opositores da “ditadura militar brasileira”, tipo comunistas ou esquerdopatas, enfermidade esta jamais inserida na CID - Classificação Internacional das Doenças. Além do mais, o grande pilar desse grupo reacionário, o Presidente Bolsonaro, sempre foi intransigente na negativa desse nosso período ditatorial e de consequentes torturas, desaparecimentos e mortes sem cadáveres. Particularmente, sempre evitei a estereotipagem de segmentos conservadores como nazifascistas, pelo respeito que também lhes devo no confronto das ideias. Entretanto, determinados grupos alardeiam práticas desumanas e civilizacionalmente primitivas, remontando a eras predatórias, escravagistas e inquisitoriais.

A semana em curso nos afetou com acontecimentos e golpes emocionais. Na 2ª feira, a dois dias de se completar um ano da fria e covarde execução da vereadora carioca Marielle Franco, e do seu motorista Anderson Gomes, em entrevistas coletivas distintas por parte da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, foi anunciado o desvendamento desse crime e a prisão dos dois matadores - um policial militar reformado e outro anteriormente expulso da corporação. O deslinde da trama ficou em aberto porquanto continua a investigação para se chegar aos supostos mandantes. Mas, foi um trabalho paciencioso e meticuloso, com a utilização de modernas técnicas científicas para se apontar os indivíduos que ocupavam o veículo Cobalt, no qual permaneceram durante quatro horas sem um passo fora, no dia do crime, bloqueando sinais de celulares e GPS, dificultando ao máximo a apuração dos fatos. As exposições feitas, tanto pelo delegado Gíniton Lopes, quanto por quatro mulheres promotoras de justiça, nos deu a dimensão macabra da ação do crime organizado, neste caso milicianos com infiltrações na política, quiçá no narcotráfico, motivados pelo ódio às causas pelas quais “demandava a vereadora Marielle no exercício do seu mandato, caracterizando um crime contra a democracia”, na opinião de uma autoridade numa das mencionadas entrevistas. Independentemente de supostos mandantes, foi dito que os antigos policiais militares possuíam “perfis reativos de aversão às ideias esquerdistas da vereadora” e que passaram meses estudando e perpetrando o atentado.

Na sequencia dessas bombásticas entrevistas no Rio, dois dias depois, 4ª feira, o Brasil é surpreendido e sacudido pelo massacre na Escola Estadual Prof. Raul Brasil, na cidade de Suzano, área metropolitana da Capital paulista, com população de 262.480 habitantes no censo do IBGE de 2010. O saldo inicial de mortos foi contabilizado em oito pessoas, sendo cinco estudantes do ensino médio, uma orientadora pedagógica, uma serviçal e um empresário a alguns quarteirões da escola. A real motivação do atentado ainda é especulação até o fechamento desta edição do jornal, mas os dois matadores, jovens de 17 e de 25 anos, moradores de uma mesma rua, que também morreram, demonstraram um ódio gratuito às pessoas, porque seus alvos foram seres desconhecidos para eles, principalmente jovens estudantes. Uma apuração inicial demonstrou que ambos trouxeram para o mundo real a banalidade dos combates e das mortes embutidas em “video games”, em filmes de TV, porquanto trajavam roupas e acessórios de personagens de certo jogo eletrônico de vídeo com que se divertiam, incluindo máscaras de caveira, além de atacarem com um revólver calibre 38, munido de carregadores de munição, um arco e flecha medieval denominado besta, uma machadinha, coquetéis Molotov, que não chegaram a ser utilizados, e um simulacro de bomba para causar mais pânico. Também foram encontrados indícios que os assassinos usaram a internet para pesquisar os mais diversos atentados do mesmo naipe praticado nos Estados Unidos da América.

A mim parece que meu espírito foi preparado para visualizar o cenário de horror em Suzano e a descrição do mórbido assassinato de Marielle Franco e seu motorista, impactantes acontecimentos desta semana. Na madrugada de sábado para domingo sonhei que estava em misterioso Reino, onde fôramos chamados a participar da sua defesa. No sonho, fui aquinhoado com dois anéis negros, espiralados, com aparência de serem de material plástico, que foram colocados nos dedos anulares das minhas mãos, numa espécie de identificação ou sagração, sei lá o que. Vagamente me lembro de um líder desse reino em plena luta com o inimigo, manejando uma espécie de lança sem ponta, enquanto eu esperava o momento de participar do embate. Amanheci melindrado com tal visão onírica, descrevendo-o em família. Em segundo lugar, o meu desejo de acompanhar Adalete, minha mulher, no culto religioso noturno daquele domingo, na Igreja Presbiteriana Independente de Muzambinho, ocasião em que essa instituição comemorava o 96º aniversário de sua efetiva regularização administrativa e legal.

O culto no templo presbiteriano revestiu-se de muita fé, orações, cânticos de corais e da banda juvenil. A pregação ficou a cargo do Pastor Vilson Alves, um muzambinhense que exerce o ministério dessa denominação religiosa em Limeira-SP, há 20 anos. Vibrante e veemente, o Pr. Vilson fêz uma emocionante pregação, regozijando-se pela oportunidade de fazê-lo ao ensejo dessa efeméride, na mesma igreja em que fincou sua crença ainda na infância. Certamente que tocado pelo Espírito Santo, aludiu ao livro bíblico de Apocalipse, no qual o Apóstolo João recebeu de Deus a tarefa de profeta, dentre as tantas que executou ao longo de sua vida. Neste sentido, extraio desse livro o Capítulo 1, versículos 1-3: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo que viu. Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nelas escritas, pois o tempo está próximo”. Mas, não foi aí que se deteve o Pr. Vilson. Sua prédica versou sobre a Dedicatória às Sete Igrejas da Ásia - Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia, para as quais João enviou cartas, escrevendo em nome de Jesus. O Pr. Vilson  fixou-se na Carta à Igreja em Filadélfia (Apocalipse 3:7-11), que diz no versículo 8: “ - eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar - que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” [...] versículo 10: “Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra”. E, versículo 11: “Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”. Segundo a nota de John C. Maxwell, contido na Bíblia da Liderança Cristã a mensagem à Igreja em Filadélfia expressa que a força é pouca, mas grande a oportunidade, então não desista!


Alguém dirá que este nosso artigo saiu do prumo, tomando rumos endoidecidos. Deveras, a violência era a principal discussão. Tratamos de um acontecimento torpe e pretérito, elucidado após um ano. O outro ainda exala odores e vapores de tão atual e de tão amplo.  Ambos têm o ódio escondido como traço de união. Ódio gerado pela ambição e poder. Ódio gerado pela cegueira política, pela indiferença à vida existente na complexa estrutura humana. Ódio aos inimigos do mundo virtual, do mundo da fantasia, que são eliminados prazerosamente e, que,de repente, são confundidos com os do mundo real, dando-lhes o mesmo fim e com o mesmo prazer.  Ódio do nada. A explicação para estes momentos conturbados do nosso mundo foi revelada e escrita há dois mil anos. É a escatologia. É o apocalipse. Num momento festivo de uma igreja, o Pastor bradou sobre o Livro do Fim dos Tempos. Era mais um alerta. E o meu sonho? Ah! esse deve ter sido mesmo só um desses sonhos que a gente não entende.


 *Marco Regis de Almeida Lima é médico, 

foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) 

e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2203)